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Goiânia, 27/03/26
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O acidente completou 38 anos em setembro de 2025

O brilho mortal que destruiu Goiânia: O que a série da Netflix não te contou sobre o Césio-137

27/03/2026, às 15:12 · Por Redação

O que começou como uma busca por sucata em um prédio abandonado tornou-se o maior acidente radioativo do mundo fora de uma usina nuclear. Em setembro de 1987, as ruínas do antigo Instituto Radiológico de Goiânia, deixadas sem vigilância, tornaram-se o cenário de uma negligência fatal. Dois jovens, ignorando o perigo oculto em uma peça de chumbo de 100 kg, removeram do local uma cápsula de Césio-137, um isótopo altamente radioativo abandonado de forma irresponsável.

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A peça foi vendida para o ferro-velho de Devair Ferreira, no Setor Central da capital goiana. Ao abrir o equipamento, Devair se deparou com um pó que emitia uma fascinante luz azulada. Encantado pelo fenômeno, ele compartilhou o "tesouro" com familiares e amigos. O brilho letal do cloreto de césio passou de mão em mão, chegando à casa de seu irmão, Ivo Ferreira, cujos filhos brincaram com o material sob as luzes apagadas do quarto.

A demora no diagnóstico selou o destino das primeiras vítimas. Durante 17 dias, os sintomas de contaminação — como náuseas, tontura e perda de cabelo — foram confundidos com doenças comuns nos hospitais locais. Quando a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) finalmente identificou a radiação, o rastro de contaminação já havia se espalhado por bairros inteiros. O acidente foi classificado como nível 5 na Escala Internacional de Eventos Nucleares, que vai até 7.

As primeiras perdas diretas ocorreram em outubro daquele ano. Maria Gabriela, esposa de Devair, e a pequena Leide das Neves, de apenas 6 anos, foram transferidas para o Rio de Janeiro, mas sucumbiram à síndrome aguda da radiação. O enterro de Leide, em Goiânia, foi marcado por protestos de moradores que temiam a contaminação do solo, exigindo que ela fosse sepultada em um caixão de chumbo lacrado. Além delas, os funcionários do ferro-velho, Israel Batista e Admilson Alves, também faleceram poucas semanas após o contato.

Maria Gabriela no hospital, dias antes de morrer por radiação — Foto: Arquivo/Polícia Federal

Embora o acidente tenha registrado 4 mortes diretas por síndrome aguda da radiação, o rastro de dor se estendeu por décadas. Estima-se que mais de 100 pessoas morreram nos anos seguintes devido a complicações tardias. Devair e Ivo Ferreira, embora tenham sobrevivido aos efeitos imediatos, faleceram anos depois, consumidos pela depressão e pela culpa. Atualmente, cerca de 600 a 1.000 pessoas ainda recebem acompanhamento médico ou pensão devido a sequelas físicas e psicológicas permanentes.

O processo de descontaminação gerou 13.500 toneladas de lixo atômico, hoje enterrado em contêineres sob grossas paredes de concreto em Abadia de Goiás, com um risco ambiental que perdurará por 180 anos. No campo jurídico, cinco responsáveis pelo abandono do equipamento foram condenados por homicídio culposo, mas as penas foram convertidas em serviços comunitários. Hoje, a tragédia ganha novas telas com a série "Emergência Radioativa", da Netflix, relembrando uma ferida que Goiânia ainda luta para cicatrizar.



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