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Reprodução/YouTubeO professor da UFG destacou que o poder econômico é frequentemente mobilizado para fazer chegar o resultado que interessa a uma campanha, especialmente na reta final
Eleições 2026: A batalha pela ‘Gôndola da Oposição’ e o fim de ciclos
25/01/2026, às 16:16 · Por Eduardo Horacio
Em uma análise aprofundada sobre o cenário político goiano para as eleições de 2026, o podcast "Quem Vai Ganhar" reuniu o professor de Sociologia da UFG e coordenador do Data UFG, Ricardo Barbosa de Lima, e o jornalista Vassil Oliveira, em um debate que transcendeu a superficialidade das pesquisas de intenção de voto. A conversa, que contou também com a participação da jornalista Isadora Piccolo, desvendou as estratégias de comunicação, o papel da opinião pública e a dinâmica da sucessão estadual, apontando para uma disputa que, desde já, define o futuro político de Goiás para além do próximo pleito.
A discussão teve início com a proliferação de institutos de pesquisa (em Goiás e no Brasil) e a consequente confusão gerada no eleitor. O Professor Ricardo Barbosa enfatizou que o problema não reside na metodologia dos institutos, que variam entre face a face, pergunta telefônica, WhatsApp e o uso de tecnologias como a do Atlas TI, mas sim na divulgação e na interpretação dos dados. Ele ressaltou a necessidade de um jornalismo cada vez mais especializado para comunicar os resultados sem confundir o público, limpando a "calçada dos institutos" que, em sua essência, são empresas que comercializam um produto.
Ricardo Barbosa recorreu ao sociólogo francês Pierre Bourdieu, citando o provocativo ensaio "A Opinião Pública Não Existe", para contextualizar o papel das pesquisas. Segundo o professor, as pesquisas de opinião são apenas um "retrato daquele momento" e não devem ser usadas para fazer previsões. O verdadeiro processo de formação da opinião pública, ele argumenta, "ocorre no momento seguinte à pesquisa, no debate público e nas conversas cotidianas, onde a opinião individual é confrontada e divulgada".
A partir dessa premissa, o debate se aprofundou na manipulação estratégica de resultados. O professor da UFG destacou que o poder econômico é frequentemente mobilizado para fazer chegar o resultado que interessa a uma campanha, especialmente na reta final. "Dominar a arena pública faz parte (do jogo político eleitoral)", afirmou Ricardo Barbosa, explicando que as campanhas trabalham com institutos internos para planejamento e marketing, e outros para a divulgação externa, numa clara estratégia de comunicação que visa fomentar um viés específico no debate público.
Ao direcionar o foco para a disputa pelo governo de Goiás em 2026, a jornalista Isadora Piccolo apresentou uma análise do cenário de pré-campanha. Ela observou que a polarização tradicional vista no país ainda não se consolidou no Estado. Isadora apontou o vice-governador Daniel Vilela (MDB) como o nome mais adiantado, beneficiado pelo apoio do governador Ronaldo Caiado e pela articulação no interior do Estado.
Em paralelo, a jornalista destacou a movimentação de Marconi Perillo, que, segundo ela, fisga alguns poucos membros insatisfeitos do MDB e assim, aos trancos e barrancos, vai articulando sua base. Por outro lado, os polos da polarização nacional — o PL, com Wilder Moraes, e o PT, ainda em definição de candidato (Edward Madureira, o mais provável hoje) — foram classificados como lentos, em "passo de tartaruga", sugerindo que a disputa inicial se daria entre Daniel Vilela e Marconi Perillo.
O Professor Ricardo Barbosa endossou em partes a análise, mas elevou o debate para uma perspectiva de longo prazo, afirmando que a eleição de 2026 não definirá apenas o próximo governador, mas sim a sucessão de 2030. Ele argumentou que o ciclo político das antigas lideranças (Iris Rezende, Maguito Vilela e Pedro Wilson) chegou ao fim, e o Estado vive, com Caiado e Daniel no governo, um vácuo de oposição, aguardando o início de um novo ciclo.
A chave para entender a dinâmica, segundo Barbosa, está na teoria da "gôndola da oposição". Neste cenário, onde Daniel Vilela é o provável vitorioso (seja em primeiro ou segundo turno), o candidato que ficar em segundo lugar, independentemente de ir para o segundo turno, estará bem posicionado como a principal alternativa para o eleitor goiano em 2030, já que Daniel Vilela não poderá concorrer à reeleição.
O mérito da pré-candidatura de Marconi Perillo, na visão do professor, é justamente o de se colocar nessa "gôndola". No entanto, Barbosa também ponderou sobre o dilema estratégico de Wilder Moraes (PL). Se o senador optar por não concorrer ao governo para manter seu mandato, ele abrirá espaço para que Marconi ou um candidato da centro-esquerda (PT) consolide a posição de principal opositor e, consequentemente, o nome forte para 2030.
Em resumo, a eleição de 2026 é vista como um divisor de águas que definirá a nova liderança e a nova oposição no estado. O jornalista Vassil Oliveira concluiu o debate ressaltando a complexidade da "engrenagem" política, cheia de articulações e movimentações intangíveis, que se intensificarão até a janela partidária de março e as convenções de julho/agosto. A disputa, portanto, vai muito além dos números imediatos das pesquisas, sendo uma batalha estratégica pela consolidação de um novo ciclo político em Goiás.
O podcast pode ser visto na íntegra gratuitamente no YouTube no link https://www.youtube.com/watch?v=HYhdLfg2b90.
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