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Goiânia, 27/02/26
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Entre os cursos com pior avaliação está o Centro Universitário Alfredo Nasser (Unifan), em Aparecida de Goiânia

Quase metade dos formandos em medicina de Goiás fica abaixo da média no Enamed

24/01/2026, às 09:54 · Por Redação

Quase metade dos estudantes concluintes de medicina em Goiás não atingiu a nota mínima exigida no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). Dos 1.926 participantes que realizaram a prova em 16 instituições de ensino superior no Estado, 936 obtiveram pontuação inferior a 60 pontos, patamar definido como nível proficiente. O percentual de reprovação, de 48,6%, supera a média nacional, que ficou em 32,7%.

Aplicado pela primeira vez em 2025, o Enamed passou a ser obrigatório para alunos concluintes do curso de medicina e tem como objetivo aferir a formação médica no país. A prova foi realizada em outubro do ano passado e avaliou 351 cursos em todo o Brasil, com mais de 89 mil participantes, entre concluintes e profissionais já formados. Entre os 39.256 estudantes em fase de conclusão, 26.431 alcançaram a proficiência, enquanto 12.825 ficaram abaixo da nota mínima, em uma avaliação composta por cem questões objetivas.

Segundo nota técnica divulgada em dezembro pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, a nota de corte foi fixada em 60 pontos, em escala de 0 a 100. A partir do desempenho individual, foi calculado o conceito dos cursos, que varia de 1 a 5. Em Goiás, dez das 16 instituições ficaram com conceitos considerados insatisfatórios, 1 ou 2, resultado associado ao desempenho abaixo da média nacional.

Entre os cursos com pior avaliação estão o Centro Universitário Alfredo Nasser (Unifan); a Universidade de Rio Verde (UniRV), nas unidades de Rio Verde, Goianésia, Formosa e Aparecida de Goiânia; a Faculdade Zarns, de Itumbiara; a Faculdade Morgana Potrich (Famp); o Centro Universitário de Mineiros (Unifimes), em Mineiros e Trindade; e o Centro Universitário de Goiatuba (UniCerrado). Essas instituições concentraram 1.354 participantes do exame, o equivalente a 70,3% do total no Estado. Desse grupo, 818 estudantes ficaram abaixo da proficiência, o que representa 87,4% dos casos de nota insuficiente registrados em Goiás.

Nas outras seis instituições — Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás), Universidade Evangélica de Goiás (UniEvangélica), Universidade Federal de Catalão (UFCat), Universidade Federal de Jataí (UFJ), Universidade Federal de Goiás (UFG) e Universidade Estadual de Goiás (UEG) —, que obtiveram conceitos 3 ou 4, houve 118 notas abaixo do mínimo entre 572 concluintes avaliados. Nenhum curso alcançou conceito máximo.

De acordo com o Ministério da Educação, instituições com conceito 1 ou 2 estão sujeitas a sanções, como suspensão de novos ingressos, redução de vagas e restrições para participação em programas federais, a exemplo do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Em Goiás, quatro cursos privados — UniCerrado, Unifan, Faculdade Zarns e Famp — devem sofrer punições. As demais instituições com nota baixa são vinculadas a municípios e não estão sob supervisão direta do governo federal.

Mensalidades altas
Apesar do desempenho insatisfatório, algumas das instituições com piores resultados cobram mensalidades superiores a R$ 10 mil. A Faculdade Zarns, em Itumbiara, teve conceito 1, com 34,5% de proficiência, e cobra R$ 13.045 por mês, ou R$ 12.523 com desconto. Em Mineiros, a Famp, com conceito 2 e 41,5% de alunos proficientes, cobra R$ 11.043, valor que pode cair para R$ 8.945 com desconto. A Unifan, em Aparecida de Goiânia, registrou o menor percentual de proficiência no Estado, 26,2%, e mensalidade de R$ 10.196.

Outras instituições com conceito baixo apresentam valores entre R$ 6 mil e R$ 8 mil. No Unifimes, em Mineiros e Trindade, a mensalidade é de R$ 7.964. O UniCerrado, em Goiatuba, cobra R$ 7.053, enquanto unidades da UniRV cobram entre R$ 6.100 e R$ 7.042, conforme o campus.

Reação
A divulgação dos resultados provocou reação de entidades do ensino superior e da área médica. A Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) ingressou com ação judicial e alegou inconsistências metodológicas na definição da nota de corte. Segundo a entidade, o Inep informou inicialmente que adotaria duas abordagens, mas aplicou apenas uma, elevando o corte de 58 para 60 pontos.

O governo federal, por sua vez, avalia ampliar o papel do Enamed. Em entrevista divulgada pela Agência Brasil, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, defendeu a utilização do exame como prova de proficiência para obtenção do registro profissional. “Primeiro porque ele vai ser feito no segundo, no 4º e no 6º ano, ou seja, ele avalia o progresso. E ele é feito pelo Ministério da Educação, que tem como interesse principal a formação médica”, afirmou.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) também estuda editar resolução para impedir o exercício profissional de egressos de cursos com conceitos 1 e 2. Ao jornal O Popular, o secretário da entidade, Estevam Rivello, disse que o jurídico avalia “a legalidade de impedir que (em cursos com) notas 1 e 2, o médico exerça a medicina no Brasil”. Segundo ele, a medida, se adotada, valeria para próximas turmas.

Entidades como a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes) e o Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp) defenderam cautela. Em nota, a Abmes afirmou ser grave “atribuir ao Enamed, já na sua edição inaugural, efeitos punitivos severos”, enquanto o Semesp apontou “divergências e falta de clareza na divulgação dos resultados”.


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