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Goiânia, 20/01/26
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A Liberté inventou de ocupar o Centro quando isso parecia teimosia. Resistiu quando promover cultura independente era quase um ato de desobediência civil

Coluna do Pablo Kossa: Casa Liberté foi o abrigo da resistência e da doideira

19/01/2026, às 19:10 · Por Pablo Kossa

 A Casa Liberté fechou as portas e todo goianiense que se importa com a diversidade da noite na cidade deveria fazer um minuto de som no máximo. Levantar seu copo ao alto e propor um brinde a um dos espaços mais legais que tivemos em nossa história. Vai fazer muita falta.

 

No primeiro endereço ao lado do Colégio Lyceu, tinha uma pegada mais cult. A abordagem do público era mais intelectualizada. Era início do governo Bolsonaro e o local serviu de trincheira, abrigo, palco e sala de estar em forma de espaço cultural. Um gesto político permanente em tempos bicudos para a minoria progressista da cidade.

 

Aí vem a pandemia.

 

Com ela, tragédias em cima de tragédias. Centenas de milhares de brasileiros morreram enquanto o escárnio habitava o Palácio da Alvorada. O negacionismo fez com que a compra de vacinas fosse protelada. Pessoas morriam, comércios faliam.

 

“Não sou coveiro”, um cara aí dizia.

 

Fecha a primeira temporada da Liberté e começa uma nova fase na Rua 8, em frente ao Cine Ritz.

 

Quem vê o furdúncio que hoje é aquela via não imagina o cemitério que era antes da Liberté chegar chegando. Heitor Vilela, sócio e mentor intelectual do espaço, batizou a Rua do Lazer como “a mais boêmia da cidade”. Quem já por lá esteve assina embaixo, pode ter certeza. E não é exagero dizer que sem a Liberté a 8 não seria o que é.

 

Tive o prazer gigante de por quase dois anos ser DJ residente do espaço. Era sempre uma alegria tocar para as pessoas na rua. Set livre, qualquer som cabia. Eu passeava pelo groove 70, synthpop 80, jovem guarda, grunge, MPB lado B, rock Brasil 80, independentes 00, axé e tudo fazia sentido. Eu me divertia mais que o público, pode ter certeza.

 

A Liberté inventou de ocupar o Centro quando isso parecia teimosia. Resistiu quando promover cultura independente era quase um ato de desobediência civil. Ofereceu música, arte, debate, comida e encontro em tempos de intolerância e patrulhamento ideológico.

 

Ali passaram artistas em formação e consagrados, militantes cansados e também os ainda jovens, tudo que é tipo de orientação sexual que couber na sigla sopa de letrinhas, gerações variadas. Todo mundo se divertindo como se o amanhã não existisse. A casa nunca se propôs a ser neutra e nisso residia sua honestidade.

 

Sete anos podem parecer pouco no calendário, mas são uma eternidade quando se trata de uma casa noturna e cultural no Brasil. Manter um espaço assim exige coragem, desgaste, prejuízo financeiro, noites mal dormidas e uma fé quase irracional de que aquilo tudo vale a pena. Valeu. E muito.


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