Poder Goiás
Goiânia, 07/04/20
Matérias
Foto: Eduardo Horacio

Maria Rita Kehl: a semente da eleição de Bolsonaro começou a ser plantada cinco anos antes, nas passeatas heterogêneas de 2013 quando, pela primeira vez, se via gente nas ruas pedindo a volta da ditadura

Maria Rita Kehl em Goiânia: “Bolsonaro é a figura da psicopatia, mas não posso dizer que ele é psicopata”

27/04/2019 · Por Eduardo Horacio

A psicanalista Maria Rita Kehl esteve em Goiânia na sexta-feira, 26, à noite no Auditório 1C da Área II da PUC-GO, a primeira vez desde que Jair Bolsonaro (PSL) se elegeu presidente. O tema de sua exposição, bastante atual, foi “a atualidade das depressões e a política brasileira”.

Para analisar o que pode ter facilitado a eleição de alguém como Bolsonaro para a Presidência da República, ela disse que uma boa pista é uma frase famosa de Thomas Mann: “Toda época que tem medo de si mesma tende à restauração”. E, neste caso, por que a repetição não se deu com Lula e sim com Bolsonaro? Ela deu pistas para a resposta. Lula estava preso (“a prisão do Lula foi fundamental na eleição do Bolsonaro, a Lavajato também serviu pra isso, ela foi feita pra acabar com o PT e com o Lula”) e mesmo assim o Brasil quase ficou dividido meio a meio, com o Fernando Haddad (PT) tendo 45% dos votos no segundo turno.

Ou seja, em uma boa pista trazida por Maria Rita, é possível inferir que uma parte do Brasil queria um retorno à era Lula (no caso, via Haddad) e outra parte, majoritária na eleição, quis a volta a um passado imaginário de uma ditadura militar, “já que o Brasil é único país da América do Sul que teve uma ditadura e saiu dela perdoando seus tiranos. O Brasil recalcou seu passado em vez de discuti-lo exaustivamente e agora pagamos o preço disso”. A memória propicia a sensação de permanência do que já passou – e a falta de memória do Brasil é que permite uma “saudade” até mesmo de um período tenebroso como a ditadura militar. “Uma pessoa sem memória é uma pessoa sem identidade”, afirmou.

Maria Rita lembra também que a semente da eleição de Jair Bolsonaro começou a ser plantada cinco anos antes, nas passeatas heterogêneas de junho de 2013 quando pela primeira vez, desde o fim da ditadura militar (1964-1985), se via gente nas ruas com cartazes pedindo “intervenção militar”.

Indagada se Bolsonaro representava a figura do “grande pai”, tão comum em tantos momentos da história, Maria Rita disse que “grande pai” quem representou foi o ex-presidente Lula. “O que se busca na política é um pai imaginário, nada simbólico, as referências são imaginárias também”, ressaltando que a política que busca figuras paternas é a política de uma sociedade que tem pouca capacidade de simbolizar. “O grande pai é imaginário e ele nos infantiliza (...), uma sociedade que elege um grande pai está numa fantasia infantil”, explicou.

Sobre Bolsonaro, segundo ela, não há ali a figura de “grande pai” e sim a “figura do poder violento”. “Bolsonaro é a figura da psicopatia”, afirmou. Mas logo fez ressalvas: “Não estou dizendo que ele é psicopata porque nunca esteve no meu consultório e, se for psicopata, não se tem como saber porque o psicopata não reconhece sua ferida e por isso nunca vai se analisar”. Maria Rita se diz otimista e afirma “querer crer” que Bolsonaro é apenas “perverso e que quer nos fazer mal”, mas vê saída. “Nossa esperança é que Bolsonaro é muito burro”, disse, para delírio da plateia. O eleitor que busca o Bolsonaro se sente de alguma forma representada por alguém como ele. “A eleição do Bolsonaro é a procura por alguém sem escrúpulos, mas também é o cara que se sente como uma anta e agora tem uma anta no poder”, arrematou.

Benjaminiana
Nos primeiros 30 minutos de exposição para uma plateia diversificada, ela falou da relação do tempo na psicanálise e na vida, com conceitos freudianos, lacanianos, marxistas e benjaminianos. Citando o sociólogo Antonio Candido (1918-2017), Maria Rita falou que uma “uma das coisas mais sinistras da história da civilização ocidental é o famoso dito, atribuído a Benjamim Franklin, ‘tempo é dinheiro’ porque isso não é uma frase, é uma brutalidade. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida, é esse minuto que está passando”. Foi uma precisa reflexão da sociedade capitalista que exige cada vez mais o atropelamento do tempo para a produção de mais-valia.

Sobre Jacques Lacan, Maria Rita brincou com o seu público dizendo que, se fosse fazer um “exame médico”, só iriam aparecer “duas cruzes e meia” e não “cinco” como lacaniana. “Eu diria que sou metade freudiana e metade benjaminiana”, fazendo referência ao pai da psicanálise Sigmund Freud e a Walter Benjamin, um dos mais estudados filósofos da Escola de Frankfurt (a propósito, Maria Rita tem inclusive ótimos textos sobre a melancolia em Benjamin e em Freud e umdeles pode ser lido clicando aqui). 

Perguntada pela plateia, Maria Rita disse que “as redes sociais são uma doença social onde a psicopatia impera” e que incentivam a “busca de sucesso sem fim”, o que gera muita frustração, mas que ainda merece mais estudos para falar com mais propriedade. E não deixou de lembrar as fake news, principalmente as espalhadas via robôs, fundamentais na eleição de Bolsonaro em 2018.


Maria Rita Kehl Psicanálise Jair Bolsonaro Ditadura Militar Sigmund Freud Walter Benjamin Jacques Lacan Lula Fernando Haddad