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Goiânia, 30/03/20
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Quem ganha uma eleição com 59% dos votos válidos, mais de 43 pontos à frente do segundo colocado, acha que pode confiar exclusivamente na própria intuição

Caiado foi eleito pelos excessos, mas só fará bom governo se for moderado

21/03/2019 · Por Eduardo Horácio

Se Ronaldo Caiado (DEM) foi eleito governador em 2018, a causa não foi só o cansaço do eleitor goiano com o marconismo. Foi principalmente isso, mas também o fato dele, Caiado, ter se apresentado como governadoriável no momento histórico correto. Os mesmos motivos que faziam Caiado ter uma imagem ruim em 1994 (quando ficou em terceiro lugar na disputa para governador) contribuíram para ele ser eleito com bastante facilidade em 2018. Se em 1994 e em outras eleições mais recentes o eleitor não queria saber de perfis como o de Caiado, em 2018 era tudo o que eleitor desejava. Neste caso, bem parecido com a eleição presidencial de Jair Bolsonaro (com a diferença que Caiado não precisou usar fake news para ser eleito). 

A imagem de arrogante carimbada em 1994 na testa de Caiado foi vista em 2018 como algo bom, como se fosse coragem, firmeza. Sinais de tempos diferentes. O sorriso irônico, que espantava as classes C e D em 1994, já era visto como virtude 24 anos depois. O "Caiado", que remetia apenas ao lado ruim e pesado do sobrenome em 1994, já era visto por um ângulo positivo em 2018. O Brasil e vários Estados deram uma guinada conservadora em 2018 - e Caiado se beneficiou dela, estando onde sempre esteve, politicamente, de forma autêntica. 

Radicalizando o raciocínio, é possível até dizer que Caiado foi eleito em 2018, na linguagem do marketing político tradicional, mais pelos seus defeitos do que por suas virtudes. Ou mais pelos excessos (típicos de quem é oposição) do que pela moderação (ótimo remédio para quem é governo). No entanto, Caiado começa seu governo em 2019 no mesmo tom da campanha eleitoral, o que pode ser sua ruína. Não há notícia, na política contemporânea brasileira, de governo bem sucedido que use as fórmulas de Caiado e Bolsonaro. A sorte de ambos é que ainda há tempo suficiente para uma mudança de postura. 

Se quiser ser bem sucedido à frente do Executivo, Caiado terá que abandonar o tom que o levou à vitória em 2018. Ele não é mais estilingue, agora é só vidraça. Só o próprio Caiado tem a perder com seu discurso moralista, que ainda permeia todas as suas entrevistas e discursos neste 2019. Foi a arrogância que o levou a perder com facilidade a eleição para a presidência da Assembleia Legislativa e é o discurso ainda inflamado (e irônico) que faz ele ter o funcionalismo público praticamente todo contra seu governo, mesmo com menos de três meses de mandato. 

Os que cercam Caiado dizem que ele ainda precisará apanhar muito para aprender a ouvir. É fácil entender: quem ganha uma eleição com 59% dos votos válidos, mais de 43 pontos à frente do segundo colocado (algo inédito na história de Goiás), acha que pode confiar exclusivamente na própria intuição. Só alguns choques de realidade mostrarão a ele que, muito mais díficil que ganhar uma eleição com 59%, é conseguir governar agradando esses mesmos 59%. 


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